Da Prática Experimental aos Mundos Possíveis: A Emergência de um Realismo Estrutural via Isomorfismos Locais em Interface com o Estruturalismo Ontológico Global
EQUIPO DE TRABAJO
- Dr. Wellington Pereira de Queirós
RESUMO
A filosofia da ciência tem enfrentado o desafio de articular a teoria da verdade por
correspondência com a prática experimental. Embora intuitiva, essa concepção mostra-
se limitada quando aplicada a modalidades distintas de experimento, como já
observaram críticos da correspondência direta entre linguagem e fatos (Moser; Mulder;
Trout, 1997). Os experimentos de revelação tornam acessíveis fenômenos antes
invisíveis, como no trabalho de Fizeau sobre o arrastamento parcial do éter,
reinterpretado pela relatividade especial de Einstein com base na lei relativística de
composição de velocidades (Cassino; Levinas, 2019). Esse episódio mostra que uma
mesma formulação experimental pode ser relida sob diferentes ontologias, preservando,
contudo, relações formais decisivas. Já os experimentos de criação produzem
fenômenos que não ocorrem espontaneamente na natureza, como o efeito Hall, cuja
manifestação depende da interação entre corrente elétrica e campo magnético em
condutores específicos (Machado, 2002). Diferentemente do caso de Fizeau, em que
uma estrutura pré-existente foi reinterpretada, aqui temos um fenômeno que não existe
fora do aparato experimental, mas que, uma vez estabilizado, integra-se ao repertório da
física e fundamenta avanços teóricos e aplicações tecnológicas (Hacking, 1983). Em
ambos os casos, a correspondência simples entre proposições e fatos revela-se
insuficiente, comprometendo o realismo científico em sua forma clássica. A
metodologia desta pesquisa combina análise conceitual e reconstrução de estudos de
caso. De um lado, examinamos o estruturalismo ontológico global de Quine (1992), que
sustenta a objetividade na preservação de invariantes estruturais mesmo diante de
mudanças ontológicas. De outro, articulamos esse enquadramento com a semântica de
mundos possíveis de Kripke (1991) e com o conceito de quase-verdade de Da Costa
(1997). Essa triangulação metodológica permite reinterpretar episódios experimentais
em chave estrutural, privilegiando a estabilidade de formas matemáticas e relações
observacionais em detrimento de compromissos ontológicos rígidos. Assim, teorias
científicas podem ser compreendidas como representações estruturais locais de mundos
possíveis, cuja validade decorre do estabelecimento de isomorfismos locais entre
segmentos do mundo atual e as estruturas descritas. Essa perspectiva restabelece a
simetria entre revelação e criação: em ambos os casos, o que se avalia é a preservação
de estrutura, e não a correspondência com entidades últimas. A relatividade especial
fornece um estudo de caso exemplar, pois elimina o éter e conserva relações
quantitativas mensuráveis por meio da nova cinemática, mostrando como uma mudança
ontológica profunda pode manter invariantes estruturais. O resultado é uma versão
refinada do realismo científico estrutural, que sustenta a objetividade sem
compromissos metafísicos rígidos e acomoda a pluralidade de modelos que coexistem
na ciência contemporânea. As limitações dessa proposta incluem a dificuldade de
aplicar o conceito de isomorfismo local em contextos de alta complexidade, como a
física quântica e a biologia molecular, além da dependência de categorias modais cuja
operacionalização exige maior rigor. As perspectivas futuras incluem ampliar a análise
para outras áreas das ciências naturais, como a biologia de sistemas e a física da matéria
condensada, refinar a formalização lógico-matemática do isomorfismo local em diálogo
com lógicas não clássicas e investigar de que modo esse enquadramento pode esclarecer
a mediação entre teoria e prática experimental.
Palabras clave: Realismo científico; Estruturalismo ontológico global; Quase-verdade; Verdade por Correspondência; Experimentos de revelação e criação.